sexta-feira, 9 de outubro de 2009

[conto] - Dormitório

A porta fechada. Uma fresta na janela permitia a entrada distante de uma luz ausente. A cama postada ao meio, dividindo o quarto minúsculo em dois hemisférios. De um lado uma pequena cômoda, do outro, uma escrivaninha com um computador amarelado, desbotado. Algumas tralhas se faziam presente. Tênis jogados atrás da porta e pôsteres horrendos cobrindo as paredes úmidas. Alguns deles enfeitavam-se em rugas, judiados pela infiltração que formava figuras distintas. No ímpeto da psique humana era de se esperar uma visualização demoníaca a cada olhadela de relance. Ao final, a realidade permitia perceber a verdade discutível: eram apenas paredes manchadas pela ação da natureza ou pela preguiça do homem – que podia ter arrumado a calha externa que inundava a cada temporal.
Um jovem de olhos profundos, deteriorados pela função costumeira de uma jornada de trabalho de doze horas seguidas e a maratonas de horas extras: bocejos e preguiça. Seu objetivo seria apreciar o colchão gasto e o estrado duro que judiava suas costas calejadas. Ao fechar os olhos, pretendia não ver o real mundo que o aguardava com anseio, mas um paradoxo de sonhos que o distanciasse da ilusão do viver.
O travesseiro raso, sujo, não propiciaria uma noite de bom sono, não fosse costume do bom moço, que encostava a sua cabeça comprimida naquele estofado repugnante e ainda suspirava alívios. Sequente ao selar das pálpebras, veio a escuridão com o apagar da lâmpada sobreposta no cubículo-dormitório. Os sonhos?
O pesadelo.
Discernir o paralelo entre a razão e a vertigem é algo incomum. Complexo em sua plena atividade pulsante. O coração vultoso. As têmporas afloradas. A escuridão persistente.
Os olhos não enxergam além da negridão envolvente, impulsionando a pressão sanguínea a engrenar o medo. Os dedos lateralmente agarrados aos cobertores. O suor insistindo em escorrer sobre a face perplexa, ainda que invisível.
A visão do nada à procura de uma brecha luminosa. Não há. A alcova tumular fora um dormitório em eventos antecedentes ao dedo no interruptor, ao fechar dos olhos no prelúdio do sono. O caixão: a cama. Gritar? A garganta seca impedia. Fugir? Não havia portas, janelas. A sensação de solidão era palpável. A companhia era o temor para o qual não se podia pedir ajuda. Fechar os olhos é a certeza de o escuro atormentar quando abri-los; de nada adianta piscar – o escuro, o vácuo da junção de todas as cores, estará lá. O negrito presente às pálpebras cerradas é mais confortável, ainda que a presunção de perdição não tenha desaparecido. O frio desconcertante tornava os arrepios gélidos em suores arranhados, proporcionando a impulsão em disparar-se, mas a jaula de muros, tetos e preto impediam qualquer escape. A cama: o refúgio. Haveria ali um chão sustentável? A dúvida assassinava qualquer esperança frustrada. Como parar de sonhar? Como se mover?
O medo trancafiava os músculos; e a coragem, única chave capaz de abrir as fronteiras entre o receio e a certeza, seria de grande valia. Mas onde encontrá-la quando o cadeado não é compatível? A escuridão ainda permeia naquele quadrado claustrofóbico em suas dimensões mais sinistras.
A força veio da curiosidade superior a qualquer outro descaminho que o levara à ruína. Os dedos afrouxaram entre os cobertores e a respiração, antes arfante, estabilizava-se na ambivalência de suas emoções. O pé esquerdo experimentou o denso ar ambiente enquanto procurava solidez para se apoiar. A espinha trêmula continuava sua epopéia de subidas e descidas pavorosas. A palma encontrou o chão com certa desconfiança. Parecia seguro. O pé direito posicionou-se ao lado, permitindo que o corpo do jovem ficasse ereto diante do mais vazio poço noturno, cor de piche. Um passo cauteloso. Dois passos. O terceiro encontrou o rodapé rente aos dedos miúdos e atrofiados. As mãos à frente apalparam a pintura vertical e resíduos molhados de umidade. O polegar esquerdo passou por entre papéis rasgados. Os pôsteres se desfaziam. O alívio. Estava em seu quarto. Estava acordado?
O joelho esbarrou naquilo que poderia ser a escrivaninha. As mãos puderam determinar o objeto. Realmente o era. A respiração profunda descarregou parte da tensão que o pressionava. O interruptor.
Seria mesmo necessário acender a luz?
A resposta veio com um sussurro incompreensível vindo de algum lado. O elevador de sensações fora intenso. A nuca arrepiou. A espinha contorceu. As pernas fraquejaram. O coração cedeu, disparou.
O interruptor era realmente necessário. Os dedos frenéticos tapeavam-no até que um cisco de luz faiscou: um corpo curvado, anêmico e nu padecia à lateral abaixo da janela, encarando-o com pupilas dilatadas. A umidade era sangue. Os cartazes espalhados se moviam, exaltando criaturas grotescas para fora de seu quadro. Os olhos do jovem viram mais do que podiam em menos de um segundo em que a luz piscou sobre sua cabeça. Grunhidos e gemidos agonizantes. O grito saído de sua própria garganta finalmente encontrou ar fora dos pulmões. O interruptor novamente acionado. A luz repentina tornou tudo mais claro e o quarto de dormir depreciava os mesmos problemas de infiltrações, e um encardido monitor jazia em cima da escrivaninha datada. A respiração e pulsação permaneciam ágeis. Os olhos fixos naquele mesmo canto logo se desviaram para as paredes de figuras bizarras, desta vez intactas e caricatas.
Gritar. Berrar. Espernear. Adjetivos que tornavam o momento menos angustiante. Faziam o jovem ter a falsa sensação de segurança. Extrair o medo, a raiva, a plenas cordas vocais e rasgar com voracidade cada milímetro de papel enrugado exposto que aprimorava o caos ao apagar a luz. O primeiro pôster fora arrancado com tamanha fúria, revelando o restante de alguma palavra formada atrás daqueles cartazes. Rapidamente, o restante arrancado mostrava com evidência a frase que, por mais temerosa e impactante que fosse, não conseguiu proporcionar uma nova sessão de roda-gigante ao estômago do jovem: “Eu vejo você”.
Quem?
Como?
Por quê?
Susto! O relógio despertara o jovem de um pesadelo constrangedor. Quando o devaneio se foi, as dúvidas surgiram. Já eram seis horas da manhã. Atrasado, o trabalho o aguardava sem novidades.
Averiguou com cautela cada uma das infiltrações; os pôsteres. A janela foi aberta com imenso alívio, permitindo a entrada de uma luz estonteante, viva. Aquele fora o último dia dos cartazes às paredes e não havia resquícios de frase alguma atrás deles.
Como é bom estar acordado para viver o pesadelo real e o corre-corre da vida.

Por Ricardo Michilizzi

2 comentários:

Fernando disse...

Gostei desse teu conto. Parabéns!

Michilizzi disse...

Valeu cara!