terça-feira, 3 de novembro de 2009

[Prólogo] Sobre as Luzes Noturnas

PRÓLOGO


O velho de paletó surrado, cinzento, apoiava-se em uma bengala com a mão direita. A esquerda, livre, revirou o interior da veste e adquiriu um relógio de bolso dourado.
Abriu o objeto com o polegar e seus olhinhos de funil esforçaram-se a enxergar os ponteiros, mesmo com o auxílio dos óculos de lentes retangulares e armação banhada a ouro.
Dezoito horas, em ponto.
As luzes da cidade acendiam-se em postes, iluminando Maluna com lâmpadas alaranjadas. Um novo início de noite.
O idoso manco esticou suas rugas faciais com um sorriso sorrateiro. Guardou o relógio no mesmo bolso, ajeitou sua cartola empoeirada na cabeça de cabelos grisalhos espalhados pelas extremidades e curvou seu pescoço acima.
Os olhinhos brilharam, quase lacrimejaram enquanto vislumbravam o crepúsculo purpúreo do entardecer em despedida.
As pupilas dilatadas flutuavam nas órbitas, como se estivesse perseguindo algum pássaro fujão.
Parecia tão fascinante observar o céu ao pôr-do-sol. Um milagre da vida que o velho agradeceria a Deus a cada dia que pôde ver o panorama transitivo em que a manhã tornava-se noite. Tudo era tão magnífico, esplendoroso, redentor...

Não para Amanda.

A menina de onze anos, cabelos lisos na altura dos ombros. A franja a lhe incomodar na testa, quase vendando suas vistas. Usava a camiseta velha de seu irmão e uma bermuda que deixava seus joelhos brancos e ralados à mostra. O nariz de pipoca franziu quando sua mão direita foi levada acima dos olhos, na tentativa de enxergar o que o velho de bengala tanto observava.
— Eles são feios, não acha, Seu Hildo?
O senhor na lateral pulou de susto. Distraído, não percebera a presença da garota ao seu lado. Ajeitou novamente sua cartola que se inclinara com o pulo e sorriu falso à pequena:
— Como disse?
Amanda era a típico criança arrogante, daquelas que não suportam quando os adultos se fazem de idiotas; disparando imediatamente:
— Para de ser besta! Ouviu muito bem o que eu disse.
O rabugento ajeitou o paletó cinza e ameaçou “bengalar” a petiz.
— Exijo respeito, sua maleducada!
Amanda não costumava levar desaforos para casa, mesmo que estes viessem de um patriarca famoso em Maluna. Mostrou a língua ao velho e bateu em retirada; os pés descalços de palmas pretejadas.
— Velho caduco! – o berro ardido e agudo da pequenina alastrou-se pela Rua Martins Fonseca com devidos ecos.
O ancião apenas ergueu a bengala ameaçadoramente, mas a pirralha já havia dobrado à esquina, rumo à Rua do Furo.
Seu Hildo arriscou uma nova olhadela ao alto. O céu já estava escuro, com espasmos lilases em pontos distintos.
O sorriso desta vez foi preocupante, mesclado com um fascínio incomum e uma alegria sigilosa:
“Será que a princesinha realmente pôde ver?”
Os olhinhos de funil piscaram com leveza. A cartola foi reajustada e a bengala auxiliou os seguintes passos.
Enquanto os comércios fechavam suas portas, demônios sobrevoavam acima das luzes noturnas.

CONTINUA...

POR RICARDO MICHILIZZI

Um comentário:

Keka Trombini disse...

Nossa bem o tipo de contos que gosto, esse vc tem que terminar!! E tempo vc tem vai?!